

Fados Tradicionais


Fado Ginguinha
A Moda Das Tranças Pretas
Letra: Vicente da Câmara
Música: Bernardo Lino Teixeira
Intérprete: Vicente da Câmara
Como era linda com seu ar namoradeiro
'Té lhe chamavam "menina das tranças pretas",
Pelo Chiado passeava o dia inteiro,
Apregoando raminhos de violetas. (bis)
E as raparigas d'alta roda que passavam
Ficavam tristes a pensar no seu cabelo,
Quando ela olhava, com vergonha, disfarçavam
E pouco a pouco todas deixaram crescê-lo. (bis)
Passaram dias e as meninas do Chiado
Usavam tranças enfeitadas com violetas,
Todas gostavam do seu novo penteado,
E assim nasceu a moda das tranças pretas. (bis)
Da violeteira já ninguém hoje tem esperanças,
Deixou saudades, foi-se embora e à tardinha
Está o Chiado carregado de mil tranças
Mas tranças pretas ninguém tem como ela as tinha. (bis)
Intérprete: Vicente da Câmara
Título: A Moda Das Tranças Pretas
Autor da Letra: Vicente da Câmara
Autor da Música: Bernardo Lino Teixeira
Guitarra Portuguesa: Raul Nery e
Fontes Rocha
Viola de Fado: Júlio Gomes
Viola-baixo: Joel Pina
Data da 1ª edição: 1996
Editora: "Alvorada"
Ref. AEP 60 816
Outras versões do mesmo Fado
Intérprete: Gil Santos
Letra: Vicente da Câmara
Intérprete: Frutuoso França
Letra: Frutuoso França

Fado Ginguinha
Composto pelo cantador Bernardo Lino Teixeira (1895 - 1947)
Um dos poemas mais conhecidos do repertório tradicional de Fado é, sem dúvida, um texto que Vicente
da Câmara canta nesta música, "A Moda das Tranças Pretas".
Por curiosidade, julgo que vale a pena contar a história deste poema: um dia Vicente da Câmara saía de uma sala de cinema, ali nos Restauradores, onde tinha acabado de ver o filme "La Violetera". Foi para casa tranquilamente e, uns dias depois, sai para Santarém onde, por virtude de um compromisso
artístico, se vê na necessidade de se hospedar num hotel só por um dia; só tinha de cantar à noite. Uma vez no quarto, vem-lhe à memória o filme que tinha visto uns dias antes. Aquela figura da "Violetera", criada e interpretada pela actriz espanhola Sarita Montiel, trouxe-lhe a inspiração para compor um poema que falasse de uma vendedeira de raminhos de violetas, a percorrer Chiado acima, Chiado abaixo, vendendo as suas flores. Esta figura, de facto, nunca existiu.
O Fado está cheio de pequenos detalhes deliciosos que vai valendo a pena contar, antes que seja tarde. Já muito se perdeu. E a propósito: essa figura ímpar do meio fadista que se chamou António
dos Santos e a quem os seus amigos chamavam "Ginguinha" (1819 - 1911) tinha normalmente discussões homéricas com aqueles que lhe chamavam "Ginguinhas". O seu amigo e grande poeta Carlos Harrington metia-se com ele no Jornal "O Fado", publicação semanal onde escrevia. Terminava tudo na maior das risotas e os amigos lá iam para a borga "em franca galhardia e companheirismo", para citar Luiz de Athayde.
A quem o tratava por "Ginguinhas", costumava responder:
Aonde sou alcunhado
Chamam-me o Fado Ginguinhas
Mau costume tem o "Fado"
Segundo o que me parece
Vai acrescentando um S
Aonde sou alcunhado
É o meu nome encontrado
Ali, em diferentes linhas
Acrescentam letrasinhas
Sem da tinta terem dó
Sendo eu um Ginguinha só
Chamam-me o Fado Ginguinhas
Pequena biografia do poeta e intérprete:
Vicente da Câmara
Dom Vicente Maria do Carmo de Noronha da Câmara nasceu em Lisboa, no Alto
de Santa Catarina, no dia 7 de Maio de 1928. Descende de uma antiga família
cujas raízes remontam a João Gonçalves Zarco.
Filho de Maria Edite e João Luís da Câmara, jornalista e locutor na Emissora
Nacional, começou a interessar-se pelo Fado ouvindo os discos de João do
Carmo de Noronha, seu tio avô, e assistindo aos ensaios de sua tia, Maria Teresa
de Noronha.
Vicente da Câmara começou a “puxar para a fadistice” e, com 15 anos, já
interpretava o fado como amador, frequentando com os amigos, espaços como
a Adega Mesquita, a Adega Machado ou a Adega da Lucília. Nesta altura aprende
também a tocar guitarra. Apesar de presença habitual nestes espaços, o fadista nunca integrou
nenhum elenco fixo das casas de fado.
Incentivado pela tia e por Henrique Trigueiro participa num concurso da Emissora Nacional, nesse
ano a vencedora é Júlia Barroso, mas no ano seguinte Vicente da Câmara ganha o 1º prémio. A partir dessa data, 1948, actuou num grande número de programas daquela estação, como os “Serões para Trabalhadores”, programas de estúdio e sobretudo no programa que a sua tia, Maria Teresa de Noronha, manteve naquela emissora até 1962.
Por essa altura, em 1950, e em vésperas da sua partida para Luanda (Angola), onde permanecerá
2 anos, assina o seu primeiro contrato discográfico, com a Valentim de Carvalho, e grava o seu
primeiro disco, lançando os temas: "Fado das Caldas" e "Varina".
A 23 de Abril de 1955 casa-se com D. Maria Augusta de Mello Novais e Atayde, com quem terá 6
filhos. O mais novo, José da Câmara, segue as pisadas do pai, chegando os dois a pisar o mesmo palco e a gravar juntos, como acontece no CD “Tradição” (EMI, 1993), onde se juntam a Nuno da Câmara Pereira numa homenagem a Maria Teresa de Noronha.
Vicente da Câmara passa a ser contratado da editora Custódio Cardoso Pereira em 1961. É neste
período que escreve "A Moda das Tranças Pretas", hoje reconhecidamente o seu maior. Em 1967
celebra um contrato com a Rádio Triunfo, onde grava temas como "Guitarra Soluçante", “O Fado
Antigo é Meu Amigo” e "Há Saudades Toda a Vida".
No cinema participou na "Última Pega" (1964), filme realizado por Constantino Esteves, com Leónia Mendes e Fernando Farinha. Vicente da Câmara protagoniza uma desgarrada com Fernando Farinha.
Só voltará ao cinema em 2007, mas as suas participações em programas de televisão serão uma constante ao longo de toda a carreira.
Após o 25 de Abril o fado passa por um conhecido período de menor popularidade que se reflecte
para o fadista numa quase total ausência de espectáculos. Vicente da Câmara mantém a sua
actividade profissional, durante 19 anos, como inspector da CIDLA, pelo que a sua dedicação ao fado como profissional, com uma actividade bastante intensa, a nível nacional e internacional, atinge o
auge na década de 80.
Desde então tem realizado espectáculos na Alemanha, Luxemburgo, França, Espanha, Holanda,
Canadá, África do Sul, Macau, Hong Kong, Seul, Coreia, Malásia, Brasil, Moçambique e Angola.
Em 1989, por ocasião dos seus 40 Anos de Carreira Artística, os amigos organizam uma Festa de Homenagem, no Cinema Tivoli, onde ele próprio actuou e, como confidência "jamais esquecerá".
No dia 25 de Setembro, na inauguração do Museu do Fado (do qual é um dos membros do Conselho Consultivo), abriu o espectáculo realizado no Largo Chafariz de Dentro, gravado pela RTPi.
Poeta e intérprete do fado, acompanhando-se à guitarra, D. Vicente continua a manter a tradição do fidalgo fadista, imprimindo às suas interpretações um cunho muito particular, destacando-se uma característica única, o timbre e musicalidade da sua voz, numa sempre clara articulação dos poemas.
O seu registo discográfico mais recente, “O rio que nos viu nascer”, foi editado pela Ovação em 2006.
O mercado acolhe também algumas reedições das suas gravações em formato CD, de que
salientamos as colectâneas do seu trabalho nas colecções “O Melhor dos Melhores” (Movieplay, 1994) e “Biografia do Fado” (EMI, 2004).
Em 2007 regressa ao cinema, no filme de Carlos Saura, "Fados", protagonizando um excerto dedicado
às Casas de Fados, onde se junta a Maria da Nazaré, Ana Sofia Varela, Carminho, Ricardo Ribeiro e Pedro Moutinho para recriar o ambiente das interpretações.
Em 2009, Vicente da Câmara festeja os seus 60 anos de carreira artística. O Teatro Tivoli é novamente o palco de comemoração da efeméride com um espectáculo onde, para além do próprio actuaram
José da Câmara, Maria João Quadros, Teresa Siqueira e António Pinto Basto, entre outros. Ainda
neste ano a Fundação Amália Rodrigues distinguiu-o com o “Prémio Carreira”.
Fontes de informação:
Baptista-Bastos (1999), "Fado Falado", Col. "Um Século de Fado", Lisboa, Ediclube.
Museu do Fado - Entrevista realizada em 17 de Novembro/2006.
Última actualização: Abril/2009